Não é comum, para um mero mortal como eu, estar à conversa com aqueles que fazem parte da estrutura cultural que connosco cresceu e que, por isso mesmo, imaginámos e idealizámos como seres quase perfeitos, dignos de se sentarem à mesa do Olimpo (mas não à nossa, claro está).
Quando estamos ao lado de alguém que faz, ele próprio, parte dessa panóplia de excelentíssimos representantes da nossa memória cultural, um dos primeiros impactos é mesmo esse espanto de, sem aviso prévio, nos encontrarmos sentados ao lado "daquele" cantor, poeta, músico, compositor, actor, mas também ministro ou ex-ministro e até mesmo, porque não, Presidente da República.
Um dos primeiros encontros imediatos que me aconteceu foi com o Fanha, poeta que habita, desde sempre, os pilares da minha vontade de escrever e de dizer e de contar.
Foi um encontro algo confuso. Fomos buscá-lo à Malveira e seguimos para Alcobaça onde tinham uma sessão juntos, ao ar livre (com chuva, ainda que miudinha), sem aparelhagem e com várias falhas de material esquecido no carro estacionado longíssimo da conhecida confeitaria. Houve, portanto alguns percalços e muitos improvisos. Mas houve, acima de tudo, carinho, muito, desde o primeiro olá até aos risos perante as correrias e tentativas de ligar os malditos adereços que, no final, acabam por não fazer falta nenhuma. Houve uma empatia imediata que ainda hoje alimenta uma ligação de aprendiz/mestre, que se veste de amizade e cuidado mútuo que tanto me alegra.
Outro dos momentos mágicos que me aconteceu foi durante as gravações de 'O Amor Virá Mais Tarde' quando me apercebi que "o" Rui Veloso iria gravar em duas cantigas com letra minha. Bom, fazer letras para um disco do Carlos Alberto Moniz já não é exatamente o dia-a-dia que algum dia (passo a redundância...) imaginei. Mas ver o Rui Veloso ali, mesmo ao meu lado, a conversar sobre hamónicas e guiatarras eléctricas para a música de duas letras que me atrevi a escrevinhar, fez nascer um dia claro na minha vida.
Claro está que, da mesma forma que algumas das auras destes seres que idealizamos são uma surpresa meiga e alegre, auras há que são apenas o espelho de pessoas (como eu, como nós) com as suas idiossincrasias mais ou menos cinzentas, com as suas fragilidades mais ou menos visíveis. Afinal os Deuses foram feitos à imagem dos homens... E eu, no que me diz respeito, escolho guardar apenas as pessoas fantásticas que irradiam boas energias.
Há umas semanas, num qualquer restaurante que não deixa lembranças boas ou más, trocando sms's com a minha mãe, ela responde-me "Estás sempre ao lado de gente fantástica!". E eu olhei em volta, da mesa, dos últimos dias e das últimas noites e (re)lembrei-me do privilegio que tenho por poder estar ao lado de pessoas que fazem parte da minha estrutura cultural e social e que, como todos, imaginei e idealizei sem nunca pensar que um dia me sentaria ao seu lado, na mesa (do Olimpo).
Liliana Lima

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